A
sala de aula estava empoeirada, vazia e avermelhada pelo pôr do sol que entrava
pela janela. Esquecida e abandonada já a muito tempo, suas cadeiras permaneciam
na mesma posição, seu quadro negro ainda tinha frases de um professor que
explicava as artes das armaduras antigas e seus desenhos, explicações essas que
trouxeram a luz, anos atrás, a Adão, um ex-aluno desta faculdade.
A
porta da sala abriu com um rangido característico, que despertou um sentimento
nostálgico em Adão. Com passos lentos, caminhou até a janela, passando a ponta
dos dedos sobre as cadeiras empoeiradas. Da janela viu uma mulher parada no
centro do pátio. Ainda usava o uniforme daquela faculdade, e ainda carregava a
mesma arma que o atingiu a anos atrás.
Adão
passou a mão por dentro da gola da camisa e os dedos sobre a cicatriz em seu
ombro, lembrando da noite em que sangrou naquela mesma sala. Olhou a cadeira
onde costumava se sentar e ainda havia uma mancha escura, agravada pela
sujeira, que despertou em sua memória mais lembranças de seu ferimento. O tiro
foi de surpresa, ele ainda podia ouvir o estouro ecoando pela sala ao se ver
anos mais jovem, naquele lugar, desenhando distraído, quando foi atingido e
atirado ao chão e logo após, pela janela da sala, que ficava no segundo andar.
Passou
os dedos sobre a janela quebrada e seus cacos pontudos, coçou a barba e voltou
a atenção para a mulher, que permanecia no pátio, enquanto o sol lutava por
mais alguns minutos de luz antes da noite cair sobre aquele lugar. Adão
levantou os olhos para a luz solar, depois para o quadro negro. Desamarrou da
cintura uma bainha que carregava, tirando uma espada em seguida. Uma espada
longa, lustrosa, sem falhas em seu corte de dois gumes. Em sua empunhadura, um
símbolo solar brilhava ao refletir os últimos raios do crepúsculo.
Quando
a noite caiu, a garota deu dois passos para frente e armou sua pistola, Adão
por sua vez, guardou a espada na bainha e ponderou sobre o que ia fazer, ali,
olhando-a pela janela quebrada. Por fim tirou os cacos restantes e saltou da
janela, rolou no chão ao cair e sacou a espada, atirando a bainha para longe.
A
mulher suspirou e deu um sorriso sem vontade, Adão fez o mesmo e apertou com
mais vigor a empunhadura da espada.
__Já
é noite. –disse a mulher, com uma voz suave, mas firme-
__É
verdade. –respondeu, sua voz era rouca e madura-
A
mulher levantou a pistola em direção a Adão, que engoliu seco, mas continuou
firme em sua posição, até o primeiro disparo, que despertou os pássaros nas
arvores do pátio, estes revoaram em resposta.
...
5 anos antes.
Adão
estava prestes a se formar, último ano de artes plásticas. Com vinte e cinco
anos, trabalhava em uma empresa de marketing visual, como design. Com o que
ganhava conseguia se sustentar com conforto, em uma casa de classe média na
cidade. Morava sozinho, mas boa parte das vezes a sua namorada o acompanhava
nas noites, seu nome era Fernanda, uma agente de artistas. Seu relacionamento
era bem simples, sem filhos ou grandes problemas, de forma que ele não tinha
muitas dores de cabeça com isso e podia se preocupar com o que realmente lhe
interessava, as artes plásticas e sua paixão, a escultura.
Era
uma tarde em especial, de domingo, onde ele e seus amigos se reuniam na casa de
Rodrigo, um de seus colegas de faculdade que o acompanha desde o início das
aulas. Normalmente suas reuniões envolviam partidas de poker com discussões
sobre seus estudos e, é claro, sobre mulheres.
Rodrigo
era um homem negro e robusto, careca de rosto largo. Realizado, tinha um bom
emprego como gerente de vendas de uma empresa automobilística e fazia faculdade
de artes por ser seu sonho. Solteiro convicto, passava boa parte do tempo
conquistando as garotas mais novas e calouras, encantando-as com seu jeito
descontraído e seu poder aquisitivo.
Os
dois estavam sentados na mesa, Rodrigo separava as fichas e baralho conversando
sobre um trabalho a ser entregue na segunda, Adão estava com seu caderno,
desenhando o que sempre costumava desenhar, armas e armaduras.
Desenhava
uma espada, duas, três e jogava todas elas fora. Tinha o desenho na mente, mas
sempre adicionava ou retirava um detalhe, nunca chegava a uma ideia certa de
como seria aquela espada. Amassou a folha e respirou fundo, jogando o papel
amassado dentro da bolsa.
__Desenha
mulher pelada. –riu Rodrigo, coçando o cavanhaque- Você não ia jogar uma sequer
fora, tenho certeza.
__Pra
que desenhar mulher pelada, se eu posso ter mulher pelada? –retribuiu o
sorriso, guardando o caderno e o lápis- Vamos lá, cadê todo mundo, tô preparado
pra perder mais cinquenta.
__Ah,
falando em mulher, eu tenho uma surpresa para hoje. –sorriu fechando a maleta e
pegando uma carteira de cigarros- Vai vir uma caloura jogar com a gente.
__Mulher
no poker? Ah não! –Adão deu um tapa na mesa- Agora pronto, acabou a atenção para
as cartas, todo mundo vai ficar dando em cima dela.
__E
você não?
__Claro
que sim. Mas não falo disso, porra, hoje é dia de amigos aqui, falar bobagem e
jogar dinheiro fora.
__Você
joga. –riu apontando para Adão- Eu ganho.
__Que
seja, você me entendeu. Ah tá, vai. Ela ao menos sabe jogar?
__Dizendo
ela, foi campeã um monte de vezes onde morava, mas acho que é papo, só para se
inteirar entres os veteranos, no mínimo.
__Pra
dar pros veteranos, você quer dizer.
__Para
dar para você. –riu e deu uma tragada longa, dizendo em seguida com fumaça
saindo de sua boca- Sabe qual o nome dela? Eva.
__Tá
de sacanagem. –respondeu incrédulo- Só pode estar de sacanagem.
__Não.
–riu- O pior é que não estou de sacanagem mesmo. Ela é uma garota dessas meio
góticas sabe? Fica desenhando coisas como a lua e a noite, usando roupa preta e
essas coisas.
__Garota?
__Dezoito
aninhos, cheirando a leite ainda.
__Bonita?
__Demais.
Dizendo ela tem namorado, mais uma história mentirosa só para se defender.
Conheço quando uma mulher mente. –terminou o cigarro e o apagou em um cinzeiro
em forma de caveira, escultura feita em alumino que Adão mesmo produziu- E isso
também não é problema para você, não é?
__Claro
que não, pode ser problema para Fernanda, para mim não. E se ela tiver
namorado, também não me importo. –se levantou, olhando o céu sem nuvens- Pego,
largo, pego de novo quando tiver bêbado, largo no outro dia… Essa rotina de
sempre... –disse um Adão um sem sorrir, sem vontade-
__Você
é um grandessíssimo filho da puta. –riu, tirando um celular do bolso da calça
jeans- Ela vai vir junto com o Olavo, de carona, ela mora perto da casa dele.
Adão
continuou a olhar para o céu, deixando que Rodrigo terminasse sua ligação. Se
indagava de como pode o destino juntar um Adão e uma Eva dessa forma.
Antigamente na escola nunca havia estudado com outro Adão, nem na faculdade,
nem em lugar nenhum. Eva muito menos, nem imaginava encontrar uma garota com
esse nome.
Mas
o momento chegou, o céu já estava com um vermelho encardido, suas nuvens
douradas. O sol se punha com gentileza enquanto ele olhava o mesmo na varanda,
apoiado na mureta esbranquiçada. Rodrigo chamou pelo seu nome e ele a viu,
acompanhada de Olavo, um rapaz alto e magro, com uma aparência que o deixava
como se sempre estivesse doente. Ao lado desse rapaz estava uma garota quase de
sua altura, de cabelos ondulados e preso em um rabo de cavalo, encarando Adão
com seus olhos castanho-avermelhados. Adão sorriu ao vê-la e estendeu a mão em
cumprimento.
__Prazer,
meu nome é Adão. –conteve o riso- Você deve ser a Eva.
__Sim,
ela mesma, o prazer é…
E
suas mãos se tocaram.
…
Chovia
intensamente, mas não a ponto de esconder o pôr do sol. Adão se sentia pesado,
encharcado pela chuva enquanto se mantinha parado, olhando para aquela mulher a
sua frente, que lhe apontava uma arma. Sem tirar os olhos dela, tateou a
cintura em busca de alguma coisa, mas tudo que sentiu foi o sangue que descia
da sua barriga.
Adão
estava pesado não somente por causa da chuva, mas também por causa da armadura
que usava, uma armadura de aço reluzente que lhe cobria todo o corpo, com
ombreiras grandes e toda detalhada com riscas douradas. Em seu peito o símbolo
do Sol estava estampado em ouro, assim como eu seu escudo, grande e triangular.
A
mulher em sua frente usava uma armadura simples, leve e justa, de um metal
negro que lhe cobria apenas o peito, braços e as coxas. Adão não conseguia ver
seu rosto com clareza, mas tinha a certeza de que era Eva, mais velha, mais
forte.
Então
ela finalmente disparou, mas Adão defendeu com seu escudo o tiro que lhe
acertaria o rosto, a bala ricocheteou, vibrando seu escudo e produzindo um
zumbido agudo. Ele então começou a avançar na direção dela com passos rápidos,
enquanto ela descarregava a arma em uma rajada de balas, que acertavam seu
escudo e sua armadura, ricocheteando para todos os lados, produzindo um barulho
que era ampliado pela acústica causada pela armadura.
Quando
tirou o escudo do rosto, se viu novamente na casa de Rodrigo, segurando a mão
de Eva, que lhe olhava com certo espanto e olhos cheios d’agua.
__Todo…
Meu… –completou Eva, soltando a mão de Adão-
__Vocês
estão bem? –disse Olavo em meio a um sorriso frágil- É assim quando Adão e Eva
se encontram? –riu, olhando para Rodrigo que retribuiu a risada-
__Você…
–começou Adão, mas preferiu não dizer nada-
__Então?
–disse Eva, voltando ao lado de Olavo- Vamos jogar?

Nenhum comentário:
Postar um comentário