terça-feira, 16 de julho de 2013

Agentes da Balança -Cap. I-

A sala de aula estava empoeirada, vazia e avermelhada pelo pôr do sol que entrava pela janela. Esquecida e abandonada já a muito tempo, suas cadeiras permaneciam na mesma posição, seu quadro negro ainda tinha frases de um professor que explicava as artes das armaduras antigas e seus desenhos, explicações essas que trouxeram a luz, anos atrás, a Adão, um ex-aluno desta faculdade.
A porta da sala abriu com um rangido característico, que despertou um sentimento nostálgico em Adão. Com passos lentos, caminhou até a janela, passando a ponta dos dedos sobre as cadeiras empoeiradas. Da janela viu uma mulher parada no centro do pátio. Ainda usava o uniforme daquela faculdade, e ainda carregava a mesma arma que o atingiu a anos atrás.
Adão passou a mão por dentro da gola da camisa e os dedos sobre a cicatriz em seu ombro, lembrando da noite em que sangrou naquela mesma sala. Olhou a cadeira onde costumava se sentar e ainda havia uma mancha escura, agravada pela sujeira, que despertou em sua memória mais lembranças de seu ferimento. O tiro foi de surpresa, ele ainda podia ouvir o estouro ecoando pela sala ao se ver anos mais jovem, naquele lugar, desenhando distraído, quando foi atingido e atirado ao chão e logo após, pela janela da sala, que ficava no segundo andar.
Passou os dedos sobre a janela quebrada e seus cacos pontudos, coçou a barba e voltou a atenção para a mulher, que permanecia no pátio, enquanto o sol lutava por mais alguns minutos de luz antes da noite cair sobre aquele lugar. Adão levantou os olhos para a luz solar, depois para o quadro negro. Desamarrou da cintura uma bainha que carregava, tirando uma espada em seguida. Uma espada longa, lustrosa, sem falhas em seu corte de dois gumes. Em sua empunhadura, um símbolo solar brilhava ao refletir os últimos raios do crepúsculo.
Quando a noite caiu, a garota deu dois passos para frente e armou sua pistola, Adão por sua vez, guardou a espada na bainha e ponderou sobre o que ia fazer, ali, olhando-a pela janela quebrada. Por fim tirou os cacos restantes e saltou da janela, rolou no chão ao cair e sacou a espada, atirando a bainha para longe.
A mulher suspirou e deu um sorriso sem vontade, Adão fez o mesmo e apertou com mais vigor a empunhadura da espada.
__Já é noite. –disse a mulher, com uma voz suave, mas firme-
__É verdade. –respondeu, sua voz era rouca e madura-
A mulher levantou a pistola em direção a Adão, que engoliu seco, mas continuou firme em sua posição, até o primeiro disparo, que despertou os pássaros nas arvores do pátio, estes revoaram em resposta.
...
5 anos antes.

Adão estava prestes a se formar, último ano de artes plásticas. Com vinte e cinco anos, trabalhava em uma empresa de marketing visual, como design. Com o que ganhava conseguia se sustentar com conforto, em uma casa de classe média na cidade. Morava sozinho, mas boa parte das vezes a sua namorada o acompanhava nas noites, seu nome era Fernanda, uma agente de artistas. Seu relacionamento era bem simples, sem filhos ou grandes problemas, de forma que ele não tinha muitas dores de cabeça com isso e podia se preocupar com o que realmente lhe interessava, as artes plásticas e sua paixão, a escultura.
Era uma tarde em especial, de domingo, onde ele e seus amigos se reuniam na casa de Rodrigo, um de seus colegas de faculdade que o acompanha desde o início das aulas. Normalmente suas reuniões envolviam partidas de poker com discussões sobre seus estudos e, é claro, sobre mulheres.
Rodrigo era um homem negro e robusto, careca de rosto largo. Realizado, tinha um bom emprego como gerente de vendas de uma empresa automobilística e fazia faculdade de artes por ser seu sonho. Solteiro convicto, passava boa parte do tempo conquistando as garotas mais novas e calouras, encantando-as com seu jeito descontraído e seu poder aquisitivo.
Os dois estavam sentados na mesa, Rodrigo separava as fichas e baralho conversando sobre um trabalho a ser entregue na segunda, Adão estava com seu caderno, desenhando o que sempre costumava desenhar, armas e armaduras.
Desenhava uma espada, duas, três e jogava todas elas fora. Tinha o desenho na mente, mas sempre adicionava ou retirava um detalhe, nunca chegava a uma ideia certa de como seria aquela espada. Amassou a folha e respirou fundo, jogando o papel amassado dentro da bolsa.
__Desenha mulher pelada. –riu Rodrigo, coçando o cavanhaque- Você não ia jogar uma sequer fora, tenho certeza.
__Pra que desenhar mulher pelada, se eu posso ter mulher pelada? –retribuiu o sorriso, guardando o caderno e o lápis- Vamos lá, cadê todo mundo, tô preparado pra perder mais cinquenta.
__Ah, falando em mulher, eu tenho uma surpresa para hoje. –sorriu fechando a maleta e pegando uma carteira de cigarros- Vai vir uma caloura jogar com a gente.
__Mulher no poker? Ah não! –Adão deu um tapa na mesa- Agora pronto, acabou a atenção para as cartas, todo mundo vai ficar dando em cima dela.
__E você não?
__Claro que sim. Mas não falo disso, porra, hoje é dia de amigos aqui, falar bobagem e jogar dinheiro fora.
__Você joga. –riu apontando para Adão- Eu ganho.
__Que seja, você me entendeu. Ah tá, vai. Ela ao menos sabe jogar?
__Dizendo ela, foi campeã um monte de vezes onde morava, mas acho que é papo, só para se inteirar entres os veteranos, no mínimo.
__Pra dar pros veteranos, você quer dizer.
__Para dar para você. –riu e deu uma tragada longa, dizendo em seguida com fumaça saindo de sua boca- Sabe qual o nome dela? Eva.
__Tá de sacanagem. –respondeu incrédulo- Só pode estar de sacanagem.
__Não. –riu- O pior é que não estou de sacanagem mesmo. Ela é uma garota dessas meio góticas sabe? Fica desenhando coisas como a lua e a noite, usando roupa preta e essas coisas.
__Garota?
__Dezoito aninhos, cheirando a leite ainda.
__Bonita?
__Demais. Dizendo ela tem namorado, mais uma história mentirosa só para se defender. Conheço quando uma mulher mente. –terminou o cigarro e o apagou em um cinzeiro em forma de caveira, escultura feita em alumino que Adão mesmo produziu- E isso também não é problema para você, não é?
__Claro que não, pode ser problema para Fernanda, para mim não. E se ela tiver namorado, também não me importo. –se levantou, olhando o céu sem nuvens- Pego, largo, pego de novo quando tiver bêbado, largo no outro dia… Essa rotina de sempre... –disse um Adão um sem sorrir, sem vontade-
__Você é um grandessíssimo filho da puta. –riu, tirando um celular do bolso da calça jeans- Ela vai vir junto com o Olavo, de carona, ela mora perto da casa dele.
Adão continuou a olhar para o céu, deixando que Rodrigo terminasse sua ligação. Se indagava de como pode o destino juntar um Adão e uma Eva dessa forma. Antigamente na escola nunca havia estudado com outro Adão, nem na faculdade, nem em lugar nenhum. Eva muito menos, nem imaginava encontrar uma garota com esse nome.
Mas o momento chegou, o céu já estava com um vermelho encardido, suas nuvens douradas. O sol se punha com gentileza enquanto ele olhava o mesmo na varanda, apoiado na mureta esbranquiçada. Rodrigo chamou pelo seu nome e ele a viu, acompanhada de Olavo, um rapaz alto e magro, com uma aparência que o deixava como se sempre estivesse doente. Ao lado desse rapaz estava uma garota quase de sua altura, de cabelos ondulados e preso em um rabo de cavalo, encarando Adão com seus olhos castanho-avermelhados. Adão sorriu ao vê-la e estendeu a mão em cumprimento.
__Prazer, meu nome é Adão. –conteve o riso- Você deve ser a Eva.
__Sim, ela mesma, o prazer é…
E suas mãos se tocaram.
Chovia intensamente, mas não a ponto de esconder o pôr do sol. Adão se sentia pesado, encharcado pela chuva enquanto se mantinha parado, olhando para aquela mulher a sua frente, que lhe apontava uma arma. Sem tirar os olhos dela, tateou a cintura em busca de alguma coisa, mas tudo que sentiu foi o sangue que descia da sua barriga.
Adão estava pesado não somente por causa da chuva, mas também por causa da armadura que usava, uma armadura de aço reluzente que lhe cobria todo o corpo, com ombreiras grandes e toda detalhada com riscas douradas. Em seu peito o símbolo do Sol estava estampado em ouro, assim como eu seu escudo, grande e triangular.
A mulher em sua frente usava uma armadura simples, leve e justa, de um metal negro que lhe cobria apenas o peito, braços e as coxas. Adão não conseguia ver seu rosto com clareza, mas tinha a certeza de que era Eva, mais velha, mais forte.
Então ela finalmente disparou, mas Adão defendeu com seu escudo o tiro que lhe acertaria o rosto, a bala ricocheteou, vibrando seu escudo e produzindo um zumbido agudo. Ele então começou a avançar na direção dela com passos rápidos, enquanto ela descarregava a arma em uma rajada de balas, que acertavam seu escudo e sua armadura, ricocheteando para todos os lados, produzindo um barulho que era ampliado pela acústica causada pela armadura.
Quando tirou o escudo do rosto, se viu novamente na casa de Rodrigo, segurando a mão de Eva, que lhe olhava com certo espanto e olhos cheios d’agua.
__Todo… Meu… –completou Eva, soltando a mão de Adão-
__Vocês estão bem? –disse Olavo em meio a um sorriso frágil- É assim quando Adão e Eva se encontram? –riu, olhando para Rodrigo que retribuiu a risada-
__Você… –começou Adão, mas preferiu não dizer nada-

__Então? –disse Eva, voltando ao lado de Olavo- Vamos jogar?

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