Antes
dos últimos raios de sol sumirem dos céus, Adão finalmente largou o martelo
sobre a bigorna e caiu sentado em uma cadeira de fibra amarela, suado, cansado,
seus braços doendo e sua mão latejando, dolorida e fraca. Fernanda trouxe duas
cervejas e entregou uma a ele, tocou a bigorna, limpou com a mão e sentou sobre
ela, o olhando enquanto ele sorria para ela, agradecendo pela cerveja.
__Você
tem noção que passou o dia inteiro aí, não tem?
Adão
tirou o suor da testa com as costas da mão e olhou para o céu, as primeiras
estrelas surgiam no manto cor de chumbo.
__É
mesmo. –disse aéreo- Nossa, para mim pareceu tão pouco. –olhou para as manoplas
que tinha produzido, apenas a cobertura do antebraço- E foi tão pouco também.
–se levantou com dificuldade e sentiu o peso do trabalho em suas costas, pegou
as manoplas e vestiu- Olha só, fiz só isso. Ainda precisa acolchoar, fazer uma
presilha melhor para firmar ela no braço e...
__Adão,
desencana. Toma sua cerveja e relaxa. –ela sorriu e tomou um gole- Hoje eu
tenho uma exposição para ir e levar o Damasceno, aquele baixinho careca.
__Sei
quem é. Aquele que pinta uns quadros escuros não é?
__Ele
mesmo. Quer tomar um banho? –sorriu e o chamou com um dedo- Vem tomar banho
comigo, relaxar um pouco, aproveita e dorme até eu chegar. –disse com um
sorriso fino-
Adão
gostou da ideia, e gostou ainda mais quando Fernanda o masturbou no chuveiro. Assistiu
Fernanda se arrumar para o trabalho, um vestido azul, longo e comportado,
chique e o mais profissional possível. Nu, deitado na cama, as vezes piscava o
olho e alguns minutos haviam passado, em um, Fernanda estava se vestindo, em
outro, já passava maquiagem e no terceiro foi quando acordou com ela se
despedindo, o beijando e bagunçando seus cabelos.
Então
finalmente, dormiu.
Pein pein pein fazia o
martelo.
Shiiiiiiii o ferro quente na
água.
Pein pein pein fazia o
martelo.
Shiiiiii o ferro quente na
água.
Adão
acordou assustado, saltou da cama e correu pela casa. Quando se deu conta,
estava em sua forja, nu, a luz do luar iluminando seu corpo e um desconforto
imenso ao notar aquela situação. Ainda podia sentir o bafo quente da fornalha
esquentando sua pele esfriada pelo ar condicionado, sentia o peso do martelo na
mão, os movimentos, o braço vibrando.
Passou
as duas mãos no rosto e respirou bem fundo, voltando para dentro da casa em
passos arrastados e cansados. O celular tocava sobre a cabeceira da cama, era
Rodrigo, provavelmente o convidando para jogar poker. Hoje não, pensou, e
deixou o celular tocar no silencioso. Deitou novamente na cama, a luz acessa, o
ar condicionado deixava o quarto tão frio quanto uma noite de inverno. Fechou
os olhos.
Pein pein pein fazia o
martelo.
É você mesmo?
Pein pein pein fazia o
martelo.
Quero que dure trezentos
anos, vai durar?
Acordou
novamente e correu até a forja, o corpo ia sozinho, ele não escolhia fazer o
que estava fazendo. Olhou para a fornalha morna, tudo como havia deixado. Notou
novamente que estava nu, em pé ao luar. Bravejou e mandou ir para o inferno
tudo e todos. Tomou outro banho e voltou para cama, mais desperto, já passava
das quatro horas da manhã. Fernanda provavelmente voltou para a casa dela e
ele, ali, estava com receio de fechar os olhos. Mas eles se fecharam.
Pein pein pein fazia o
martelo.
Essa espada vai perfurar o
coração dela.
Pein pein pein fazia o
martelo.
E depois você vai fazer o
quê?
Acordou
sem se assustar desta vez, já via o brilho do sol pelas cortinas azul-marinho.
Levantou sentindo as dores do trabalho de ontem lhe castigando, mas estava
feliz, satisfeito por poder ter feito o que fez. Era uma segunda-feira, mas
isso não o desanimou. Se arrumou como sempre, o mais simples possível com suas
camisas brancas.
...
Rúbi
e Ágata olhavam Adão de longe, apoiados na pick-up preta, no pátio da
faculdade. Ele estava conversando e rindo com Olavo e Rodrigo, as risadas as
vezes eram altas e irritantes, alguns alunos olhavam aquele trio com desgosto e
desdém, mas eles nem ao menos reparavam nisso. Já era meio-dia, um dia de
nuvens pequenas e um sol forte e caloroso. Sentados sobre a sombra de uma
árvore, matavam o tempo antes de irem para seus afazeres diários.
__Aquele
é Adão? –disse Ágata por trás de seus óculos escuros- É um homem muito bonito.
__E
grande. –completou Rúbi, coçando a barba rala e ruiva- Tem cara de Adão, não é
verdade?
__Sim,
com certeza. Já tem algum filho?
__Não,
isso me surpreendeu também. Nenhum.
__Deve
ser por causa dos dias de hoje. –disse sorrindo para o irmão- Camisinha...
Anticoncepcionais... Essas coisas. As pessoas parecem que não querem mais ter
filhos, são egoístas demais.
__Em
breve eu vou falar com Adão. –olhou para a irmã e seus cabelos encaracolados- E
você, já encontrou Eva?
__Ainda
não. Sabe como é essas coisas noturnas, são escuras, surdinas, cheias de
mistério... Já o dia e o sol, brilham demais, todo mundo vê, todo mundo sabe.
__É
verdade, precisa de ajuda? –deu uma última olhada para o trio que conversava
sobre a noite de poker que tiveram e voltou para dentro da pick-up- Se quiser
posso te ajudar a encontra-la, depois voltou para o Adão.
__Não
precisa Rúbi. –entrou na pick-up e tirou os óculos, olhando seus olhos verdes
no espelho do quebra-sol- Ele já começou a forjar... –disse ela para si mesma-
E Eva? Por quê nada ainda.
__Os
tempos são diferentes minha irmã, nos falaram isso, nós sabemos disso. Vá com
calma e vai conseguir encontrá-la.
__Espero
que ela não faça nenhuma besteira até lá.
__Não
fará. Ao menos, eu acho que não.
Rúbi
saiu do pátio, sem pressa, manobrando no pequeno estacionamento daquela área e
saindo com o veículo silencioso. Adão seguiu o veículo com os olhos, já tinha o
visto antes e sabia onde era, em frente ao bar, próximo dali. Deveria ser algum
aluno, pensou, sem dar muita importância ao fato. Mas algo lhe fazia coçar a
nuca, uma sensação estranha que não conseguia definir qual era, não sabia o
porquê, mas havia algo de importante naquele carro. Adão apontou e perguntou
aos amigos se conheciam quem dirigia aquela pick-up, Rodrigo, dando uma risada
alta e uma tragada longa no charuto, respondeu a Adão com a fumaça saindo de
sua boca como um dragão careca e de cabeça redonda.
__Você
também não espera que eu conheça todo filho da puta do mundo, não é?
...
Uma
semana se passou desde que Adão viu a pick-up saindo do estacionamento. Era
domingo e Rodrigo achou bom fazer uma pequena festa em sua casa, mais uma vez,
para comemorar os bons negócios que sua empresa havia feito. Rodrigo acreditava
que tudo deve ser comemorado, tudo que seja bom, do menor dos atos até as
maiores conquistas. Dessa forma, você deixa bem claro para a vida o que é te
deixa feliz e satisfeito.
Adão
chegou sozinho, ao entardecer. Uma barba grossa e cheia de duas semanas
adornavam seu rosto, além das olheiras e o cabelo um tanto bagunçado. Foi
recepcionado por um Rodrigo sorridente, charuto no canto da boca, queimando
suavemente. Estava com um short de banho molhado e o corpo grande brilhando
sobre a luz do pôr do sol.
__Ei
se não é meu amigo Adão! Cristina! Vá buscar duas cervejas para nós! –gritou
sem olhar para trás, Adão viu uma mulher sair da piscina fazendo com a mão um
sinal de “já volto” para as outras pessoas com quem conversava- Então Adão, o
que houve meu amigo? –tirou o charuto e o puxou com um braço, molhando sua
camisa regata branca- Ei, ei, aquela fornalha tá acabando mesmo contigo hein?
Ou é a Fernanda? Está faltando diversão pro menino aí de baixo?
Adão
pode ver Cristina de micro biquíni, com uma garrafa em cada mão, vindo em uma
corridinha divertida, os seis grandes e morenos saltando de um lado para o
outro. Aquela cena lhe lembrou as propagandas de cerveja, onde todos sorriem,
as mulheres são bonitas e as cervejas são geladas.
__Aqui
está grandalhão. –entregou a cerveja para Rodrigo- E aqui para você cara
grande. –e entregou para Adão, com um sorrisinho a mais- Vai entrar na piscina?
Adão
sorriu, a cerveja próxima dos lábios.
__Talvez.
–disse olhando os cabelos negros e molhados da mulher- Quem sabe dou um
mergulho depois contigo.
__Não
demore então.
Cristina
sorriu mais uma vez, e uma terceira quando os seios fartos finalmente venceram
os olhos de Adão. Voltou da mesma forma saltitante para a piscina. Rodrigo
esperou um pouco e depois de um belo gole, segurou o ombro de Adão e apontou
para a piscina.
__Meu
amigo, você sabe que todos nós somos seus amigos. –disse e depois olhou para
ele, que o encarava com um rosto cansado- Então, já que está aí, cheirando a fumaça
e ferrugem, parecendo alguém que está trabalhando como se tudo dependesse
disso, dê um tempo para si e aproveite essa festinha, por favor. Sabe? Sabe o
que é mais interessante? Lembra daquela pick-up preta, aquela que você
perguntou quem dirigia? Então... –tragou e falou como um dragão, a fumaça
subindo pelo rosto- Rúbi é o nome do pilantra, é um homem de negócios, está
trabalhando com a nossa faculdade para um evento esportivo, esse tipo de coisa.
Posso não conhecer todo mundo, mas conheço muita, muita gente.
__Rúbi?
–disse em um riso- Rúbi? Isso lá é nome?
__O
cara e sua irmã, que diga-se de passagem é uma maravilha, vieram lá da puta que
pariu, um outro país, Eslovênia se não me engano, mas isso não é importante. O
importante é que eu vi eles um dia parados aqui perto, ali no final da rua.
Você falou para mim aquele dia e eu acabei tentando lembrar, “onde foi que eu
vi esses caras” e aí fiquei curioso, tive que descobrir.
__Eslovênia...
Isso é longe. –olhou ao redor e começou a caminhar para a piscina- Olavo já
está pegando a Eva ou ainda tá enrolando? –viu que ele não estava lá e olhou
para trás- E nada dele ainda, ele vem?
__Vem
sim. Agora larga essa cara de bunda e vai dar um mergulho. Ah, eu não terminei,
advinha quem eu convidei?
__Não
sei, Caim e Abel? –disse dando de ombros-
__Ágata,
a ruiva. A irmã do tal de Rúbi.
Adão
coçou a barba, terminou a cerveja, coçou a barba mais uma vez. Rodrigo o
encarava, esperando algum comentário, algum elogio, um parabéns talvez. Mas ele
não disse nada, entregou a garrafa ao amigo, tirou a camisa regata e levantou
os braços, cheirando as axilas. Sorriu, não estava realmente fedendo, só um
tanto defumado.
Rodrigo
voltou a piscina e logo após Adão, com duas cervejas, que se intrometeu entre
Cristina e outro rapaz e lhe entregou uma delas. A mulher sorriu e tomou um
golinho, o olhando nos olhos. Ele sorriu de volta, trocando olhares com aquela
mulher.
Já
passava das nove da noite quando Eva chegou, em roupas simples, negras e
cabelos presos em um rabo de cavalo alto, Adão já estava encostado na beirada
da piscina, ao lado de Cristina, que sorria com seus gracejos. Ao vê-la, se
sentiu mais constrangido do que se tivesse visto a própria Fernanda ali,
parada, o olhando como se olhasse o pior dos pecados. Eva parou por um momento,
o reconheceu com a barba grande e sorriu, acenando. Ele acenou de volta, com um
sorriso sem graça.
__Quem
é? –disse Cristina um tanto enciumada-
__Ela?
É a Eva.
__Eva?
–disse com um sorriso nervoso- Então você tem namorada e fica aí, se engraçando
para cima de mim?
__Não,
o nome dela É Eva, não é nada minha.
__Pois
não parece. –disse dando um pequeno empurrão nele, mas o puxando de volta em
seguida- Não tem problema, não tenho ciúmes não. –com um sorriso sacana,
encarou Eva e se aproximou do rosto de Adão- Ela não vai me matar se eu beijar
sua boca não é?
Adão
a abraçou pela cintura e a colou em seu corpo, sentindo seus seios fartos
contra o peito e lhe beijou a boca. Eva conversava com Rodrigo, mas logo seus
olhos voaram em Adão, como aves de rapina. Por um momento Rodrigo teve essa
impressão, como se Eva fosse uma ave, sobrevoando, analisando, procurando sua
presa. Ela não disse nada, mas não pode conter sua expressão de
descontentamento, não tão bem quanto escondia suas cartas no poker. Rodrigo
sorriu, deu um tapinha no ombro de Eva e ela desviou o olhar, voltando a
atenção para ele.
__Desencana
Eva. –apontou discretamente para Adão- Ele é assim mesmo. Você pode até fisgar
esse homem, por um tempo, como Fernanda fez e como outras fizeram antes dela,
mas não dura muito, o homem tem um pau caçador pior que o meu.
Eva
arqueou uma sobrancelha, balançou a cabeça em negação com o comentário mas
depois riu, primeiro segurou o riso, depois deixou que saísse, sonoro e
sincero. Imaginou o pau caçador, Adão e Rodrigo, nus e de pênis ereto, correndo
pela floresta enquanto mulheres de todas as etnias tentavam fugir, entre as
árvores.
A
imagem em sua mente acabou mais a atraindo do que repudiando.
Dez
minutos depois foi a vez de Ágata aparecer, um vestido elegante cor de
esmeralda, curto e decotado, os cabelos estavam soltos, selvagens, tinha uma
aparência mágica em seus olhos que combinavam com o vestido, o rosto sardento
com seu charme especial. Rodrigo saltou da piscina e, em passos molhados, a
cumprimentou e lhe beijou o rosto, a convidando para que entrasse na agua.
Recusou por um momento, disse que beberia algo antes, mas ao ver Adão disfarçou
e sorriu, tirando o vestido e revelando uma pele que deveria ser banhada pelo
luar todas as noites, de tão leitosa, uma pele que não deveria ver o sol a um
bom tempo. Vestia por baixo um biquinho preto, sem detalhes, comportado.
Perguntou a Rodrigo se tinha vinho e foi tranquilamente a piscina, enquanto seu
anfitrião ia até o freezer acendendo um charuto.
De
longe, a olhou de canto de olho, vendo se aproximar de Adão com visível
interesse. Algo não estava certo para ele, tinha certeza, mas precisava tirar a
prova, entender quem eram, não gostava de ficar no escuro. Eva foi ao seu lado
e encostou a taça em seu braço, Rodrigo disfarçou e sorriu, enchendo a taça da
garota que prendia os olhos em Ágata.
__Também
acho. –disse tirando o charuto da boca e segurando a taça de Ágata- Não acha?
__A
ruiva? –seus olhos castanhos avermelhados voltaram a Rodrigo- Acho. Acredito que
acho...
__Onde
está Olavo? –deu por falta, olhando para os lados- Não veio com você?
__Pelo
que ouvi, está em casa, não está muito bem. Selene resolveu ficar com ele por
lá.
__Boa
garota. –disse retornando o charuto à boca e voltando para a piscina-
Ágata
andou lentamente até Adão, cumprimentando algumas pessoas, sorrindo para
outras. O homem coçou sua barba ao vê-la se aproximando e pediu que Cristina
fosse buscar mais uma cerveja para eles. Ela sorriu e lhe beijou a boca
rapidamente, saltando fora da agua e quase esfregando as nádegas no rosto de
Adão. Eva ao ver o comportamento da mulher, riu da situação, mas logo voltou a
atenção de ave de rapina para Ágata, mais uma mulher que se aproximava daquele
homem das suas visões.
Os
olhos esmeralda analisaram o rosto cansado de Adão e sorrirão gentilmente, mas
aquele sorriso não lhe agradou como deveria ter agradado, pelo contrário,
franziu a testa e tomou folego, esperando a mulher finalmente se aproximar.
__Olá!
–disse animada- Adão não é?
__Você
deve ser Ágata, a mulher que gosta de ficar encarando os outros. –disse um
tanto tonto pela cerveja, depois sorriu- Rodrigo estava certo. Você realmente
tem um charme. Diz aí, o que foi? Veio de longe só para falar comigo?
__Aquela
mulher que estava contigo, qual o nome dela?
__Cristina.
–deu de ombros e sentou na borda da piscina, seu estomago se embrulhava e
remexia- Ela é hetero.
__Não
foi por isso que perguntei.
Disse
séria para Adão, quando foi continuar Cristina sentou ao lado dele e lhe
entregou a cerveja, o beijando nos lábios, um beijo que era mais uma marca de
território que um beijo propriamente dito. Ágata não se importou, esperou
aquela pequena cena acabar e foi direto ao ponto.
__Você
conhece a Eva? –perguntou sem sorrir-
__Ela
parece que é famosa hein? –disse rindo uma Cristina já bêbada e de olhos
miúdos- Todo mundo parece querer saber quem é essa mulher, e olha lá. –disse
apontando, tentando ser discreta mas sem conseguir- E olha lá, até a ruiva aí é
mais bonita, o que esse povo vê nela?
Adão
achou estranho o interesse repentino e logo ligou um mais um, Ágata perguntou
pelo nome de Cristina pois buscava Eva, não ele. Sua mente alcoolizada pensava
que ela era apenas uma lésbica, dessas tantas que Rodrigo encontrava pela
faculdade, mas era como se ele tivesse a sensação que algo estava prestes a
acontecer, como a tensão de passar uma linha pelo buraco da agulha. Deu apenas
um pequeno gole na cerveja e observou a mulher se afastar, levando com ela um
pouco da tontura que sentia. Cristina puxou seu rosto e lhe beijou a boca, mais
um beijo desconfortável, que mais parecia um grilhão sendo amarrado em seu
pescoço do que uma amostra de carinho ou tesão.
Ele
se afastou e agradeceu a cerveja, disse que precisava ir ao banheiro e, em
passos que lhe faltavam a firmeza, foi até Rodrigo que estava no freezer
pegando uma cerveja e o puxou para dentro da casa, na cozinha. Cristina olhou
durante algum tempo para a janela onde Adão parecia discutir com Rodrigo e deu
de ombros, voltando a atenção para sua cerveja e para o homem com quem
conversava no início da noite.
__Alguma
coisa está errada. –Adão dizia, molhado, empoçando a cozinha- Tem alguma coisa
errada.
__Você
bebeu muito Adão? –disse pegando a cerveja dele e deixando sobre a pia- A
tempos não te vejo assim.
__É
noite... É noite... Você viu como os olhos daquela Ágata brilham? Parecem...
Pedras preciosas e...
__Ele
tá bem? –Eva apareceu com uma expressão de preocupação quase caricatural- Bebeu
demais?
__Ele
está bem sim. –concluiu Rodrigo e deu uma olhada para a janela, Ágata parecia
se enturmar com duas outras mulheres que bebiam vinho- Conhece a Ágata, Eva?
__Não.
–suspirou e a olhou também pela janela- Sabe que não, o que aconteceu?
__Nada.
–disse um Adão tonto, esfregando os olhos- Ah cara quer saber, vou para casa.
Respirou
fundo e deu dois passos largos. Eva o segurou pelo braço.
Seus
olhos se arregalaram, seu coração pulou uma batida, mas nada aconteceu. Nenhuma
visão, nenhuma sensação estranha. Apenas o susto que a expectativa gerou
durante todo esse tempo. Eva sorriu e deixou a taça em cima da mesa, depois se
virou para Rodrigo.
__Não
se preocupe, eu levo ele lá. –Eva olhou pela janela, os olhos de Ágata grudados
no que acontecia pela janela, e depois se voltou para Adão- Pode ser?
Adão
ponderou, coçou a barba, olhou para Rodrigo que fez um sim com a cabeça.
__Certo.
Mas nada de... Você sabe, essas coisas.
__Certo.
–respondeu e sorriu, fazendo uma careta para Rodrigo como se não soubesse do
que ele estava falando-
...
Adão
estava com o rosto virado para a janela, o vento noturno gelava sua face, mas o
despertava. Ainda se sentia tonto, mas o que sentiu na presença de Ágata era
outro tipo de tontura, uma vertigem como se sua mente estivesse sendo torcida.
Eva sentia vontade de falar, conversar, perguntar sobre o sol e sobre o que viu
em suas visões, mas lhe faltava a coragem. Ela o olhou, seu rosto virado, seus
olhos miúdos e cansados, o achava mais bonito sem barba, com certeza. Quando
chegaram, Eva estacionou o carro na garagem da casa e desceu, jogando as chaves
para Adão que pegou em um reflexo um tanto desastrado, a chave não ficava na
mão, caia uma, duas até que na terceira vez ele a agarrou, quase no chão.
Arrumou o cabelo e sorriu para Eva, que retribuiu o sorriso.
__Eu
vou chamar um taxi e vou para casa. –disse já dando as costas- Até a próxima.
__Ei.
–pigarreou- Anh... Não tenho piscina, mas quer, não sei, tomar um vinho?
Eva
cruzou os braços e sorriu para Adão, que sorria de volta, um tanto sem jeito,
um tanto cafajeste, ela não sabia se era o álcool ou se ele não sabia expressar
um sorriso.
__Não
é muito tentador para uma mulher passar a noite com um homem que estava
beijando a boca de outra mulher.
__Ei,
você não precisa beijar na minha boca! –sorriu e apertou o botão do controle na
chave do carro, o portão começou a se fechar em um zumbido ritmado- Vem, já
está tarde para pedir um taxi, eu tenho um excelente...
__Tarde?
Mal são onze horas!
__Quarto
de hospedes. –abriu a porta da garagem- Venha, quero te mostrar uma coisa.

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