Rodrigo
esmurrava com força o portão da casa de Adão. Os vizinhos mostravam a cabeça
pela janela e observavam o homem esmurrar o portão bege e sem detalhes. O
barulho era alto, incomodo e constante. Ele gritava e bravejava, tocava o
interfone e nada. Se afastou por um momento e acendeu um cigarro, encarou os
vizinhos curiosos e os mandou cuidarem da própria vida. Não chegou a das duas
tragadas e voltou a esmurrar e chutar o portão.
Quase
cinco minutos depois, Adão abriu a porta ao lado do portão e o olhou, os olhos
ainda se acostumando a claridade. Rodrigo parecia um dragão, a fumaça saia
consistente da boca, a testa tão franzida que os olhos ficavam miúdos naquele
rosto. Adão sorriu sem jeito, apenas de bermuda, controlava a respiração. Foi
pego em um dos momentos fogosos com Eva.
__Mas
que porra Adão! Por que não atende a porra do seu telefone? Tem essa merda para
quê? Enfiar na bunda? Mas que porra!
__Ei,
ei... –o convidou a entrar, mas ele recusou- O que houve?
__Olavo
está sumido. Selene ligou para todo mundo o procurando. Teve uma recaída ontem,
piorou, o pai o levou ao hospital. –deu uma tragada longa e o encarou- Ele
receberia alta pela manhã, estavam acostumados com isso, não é a primeira vez,
mas Olavo sumiu. Deve ter saído enquanto o pai dormia. Selene está desesperada
atrás do irmão, ninguém sabe o que aconteceu com ele. E você aí trancado dentro
de casa.
__Eu
não tenho bola de cristal para adivinhar as merdas que vão acontecer também né
Rodrigo?
__Mas
você tem um celular porra! –deu uma tragada longa e atirou o cigarro na rua,
sem terminar- Olha, vou atrás da Eva agora, vai ver ele foi na casa dela ou sei
lá.
__Não,
não... –disse e se aproximou do Rodrigo- Depois que Eva me trouxe da sua casa
ela acabou ficando por aqui.
Rodrigo
cruzou os braços e o olhou com os olhos cerrados. Sorriria se não estivesse
preocupado com Olavo. Alisou o queixo e voltou para o carro, parando na porta.
__Sabe
de algum lugar que ele possa estar?
__Não
sei Rodrigo. –respirou fundo e coçou a barba- Mas vou só por uma camisa e vou
ajudar a procurar. Só não sei aonde começo... Pelo que sei ele pode estar em
qualquer lugar.
__Também
não sei aonde procurar Adão. –confessou um tanto frustrado- Não faço a menor
ideia. Vou a bares, lojas, não sei... Selene e o pai já procuraram na faculdade
e nada. Tentamos ligar para a polícia mas os filhos da puta falaram que apenas
depois de vinte e quatro horas que é considerado desaparecido.
__Certo,
vou ver o que eu faço também. –Adão coçou a cabeça, perdido- Nenhuma dica,
nenhuma informação, nenhum nada?
__Selene
disse que tinha ligado para ele, mas depois que atendeu, ouviu como se o
celular tivesse caído no chão e ficou lá, depois só ouvia o barulho dos carros
passando.
__Não
é muita informação mesmo. Certo, nos vemos mais tarde então.
...
Eva
estava sentada no sofá vestida apenas com um roupão de Adão. Acompanhou com os
olhos o homem entrar, parecia preocupado, nervoso até. Ela não disse nada,
apenas esperou que se explicasse.
__Precisamos
ir Eva.
__Fernanda
está vindo para cá? –disse com um sorriso maldoso-
__Não,
é Olavo. Ele está perdido desde ontem à noite, ele fugiu do hospital de
madrugada.
Eva
saltou do sofá e foi a passos largos para o quarto, pegar suas roupas e se
vestir, Adão a acompanhou. Quando ligou o celular, viu algumas chamadas
perdida, como imaginou, do seu trabalho, de Fernanda, Selene e Rodrigo.
Vestiu-se rapidamente, nervoso, sem conseguir imaginar onde procurar.
__Tem
ideia de onde ele foi? –disse Eva pondo os brincos-
__Não,
nenhuma. –Adão calçou o tênis e saiu do quarto, falando alto- Vamos dar uma
volta por aí. –o celular vibrou no bolso, era uma mensagem de Rodrigo- Vou
procurar nos hospitais, Rodrigo me deu a ideia, ele está fazendo o mesmo.
–sorriu ao ver os nomes- Ele me passou até um roteiro, olha só... –achou graça
em como a mensagem era bem organizada- Foi uma boa ideia.
__Realmente,
vamos? –disse incrivelmente arrumada em tão pouco tempo- O que foi?
__Nada...
Você é rápida.
...
Já
era quase seis horas da tarde, Adão visitava o ultimo hospital sem sucesso. A
enfermeira lhe lembrava uma toupeira, enfiada em um cubículo, via apenas do
nariz para cima, com um olhar de tédio e frustração. Depois de dizer que
ninguém que bate com a descrição foi internado ali, socou o balcão com raiva,
sentindo a própria frustação. Eva o acalmou, lhe puxando pelo braço e dizendo
para que continuassem a procurar.
Recebeu
uma ligação de Rodrigo, disse que estava procurando nas delegacias e que
retornaria assim que terminasse. Não havia muitas, pediu que Adão tomasse um
tempo para si, para que as ideias voltassem para o lugar. Quando chegaram ao
estacionamento, Adão olhou para a lua, grande e clara no céu. Faltava poucos
dias para que fosse lua cheia, voltou os olhos para Eva que também olhava para
o céu, em busca de respostas. Sua pele branca parecia brilhar sobre os raios
lunares, isso mais o incomodou que o agradou.
O
celular tocou novamente e Adão o atendeu prontamente, Ricardo o avisou que
Olavo havia sido encontrado em um parque pelos vigias e levado a um hospital,
cerca de trinta minutos atrás. Quando recobrou a consciência, pediu que o
hospital ligasse para seu pai. Adão avisou a Eva que sorriu aliviada, o
chamando para que lhe fizessem uma vista. Ricardo concordou com a ideia e decidiram
se encontrar lá.
Voltaram
ao hospital onde estava inicialmente internado, grande, moderno, com divisórias
de vidro trabalhadas e com a pintura informativa em azul e verde claro. A
recepcionista mais parecia um canário do que uma toupeira, o que imediatamente
agradou Adão, que foi se informar com um sorriso sincero e cansado no rosto.
Rodrigo vinha em um corredor, esquivando o corpo grande de macas ocasionais.
__Adão!
–chamou com a mão- Venha.
A
recepcionista fez um sinal positivo com o polegar e sorriu, ele agradeceu
chamando Eva e indo um tanto apressado. Rodrigo cumprimentou Eva com um olhar
que dizia “eu já te avisei, mas você que sabe, eu já tô sabendo de tudo”, ela
sorriu um tanto corada, mas estava firme em suas escolhas, já se considerava
adulta o suficiente para saber onde pisava.
Rodrigo
levou-os ao quarto onde Olavo estava, era grande e espaçoso, mas só podiam
entrar três pessoas por vez. Adão ficou do lado de fora e acenou para Olavo,
que retribuiu o aceno em um sorriso fraco. Eva entrou e foi até o rapaz na
maca, segurando sua mão. Ele recebia soro e respirava com ajuda de um pequeno
tubo conectado ao seu nariz, estava desidratado, sua mão estava fria, fraca,
mas segurou a de Eva com firmeza.
No
quarto Selene estava em pé ao lado de Eva e seu pai, um homem que parecia um
Olavo com 50 anos, gordo e saudável, com um cavanhaque loiro, estava sentado em
uma poltrona, cochilando.
__Pegou
mesmo então, não resistiu a novinha. –disse Rodrigo com um sorriso sacana-
__Não
é hora cara. –respondeu Adão, os braços cruzados sobre o moletom branco-
__Olavo
me disse que não se lembra de nada. –alisou o cavanhaque e encarou Adão- Nada.
A última coisa que se lembra foi cochilar no sofá da casa com Selene ao seu
lado, mudando canal da TV. Pelo desgaste que ele está, parece que correu uma
maratona, tem queimaduras de sol, está muito desidratado... –respirou fundo e
também cruzou os braços- Os pés estão feridos e queimados, parece que estava
descalço todo esse tempo.
__O
que foi que aconteceu, alguém tem alguma ideia?
__Não.
Palpitaram o seguinte, que é a doença alcançando o cérebro, degenerativa sabe?
Vamos lá fora, quero fumar um cigarro.
Olavo
conversou um pouco com Eva, tentou explicar o que aconteceu e como chegou ali,
Eva preferiu que conversassem depois, para que pudesse descansar, Selene
concordou.
__Tudo
bem. –disse com a voz fraca- Só abra aquela cortina, por favor.
Selene
puxou a corda de bolinhas de plástico e a cortina se abriu, deixando a luz do
luar entrar no quarto. O rosto de Olavo ficou mais claro com a luz, ele sorriu
ao vê-la tão grande no céu e fechou os olhos. Eva afagou seus cabelos e lhe
beijou o rosto, quando foi beijado, Olavo disse sem pensar.
__Lunin
Solza. –piscou algumas vezes e olhou para Eva-
__O
que foi que disse?
__Não
sei. –Olavo sorriu- Eu disse alguma coisa?
__Luni
Souza. –disse Selene com a testa franzida- É um nome? De alguém?
__Não
foi Souza. –Eva fez mais um cafuné e se afastou- Descanse Olavo, amanhã à noite
venho te ver, OK?
__Claro!
–sorriu feliz com a notícia- Boa noite Lunin.
__Boa
noite.
Eva
saiu e Selene a acompanhou, fechando a porta do quarto. Ela caminhava em passos
apressados, um tanto chateada pela situação em que Olavo se encontrava.
Lunin.
Eva
sabia que já ouviu esse nome antes, só não lembrava onde. Adão e Rodrigo
estavam próximos ao esportivo de Rodrigo, ele estava sentado no capô, fumando
um cigarro, Adão ao seu lado, os braços cruzados e a testa franzida. Estava
nervoso, incomodado. As duas garotas chegaram e atualizaram os dois sobre
Olavo.
__Bem,
eu preciso ir. –disse Adão-
__Eu
também, preciso trocar essa roupa. –sorriu Eva, Selene a estranhou-
__Vamos,
eu vou retribuir a carona. –Adão a chamou-
__Claro...-olhou
para o hospital e lembrou de Olavo na cama, Lunin...- Claro, vamos.
Se
despediram rapidamente, Rodrigo com um cigarro na boca olhou o carro sair do
estacionamento e se distanciar. A fumaça lhe dava aquela aparência draconiana,
um tanto ameaçadora. Selene estava acostumada com aquela cara e sorriu, pedindo
um cigarro para o homem.
__Eu
posso ser jovem, mas não sou burra. –Selene disse ao acender o cigarro- Puta
que pariu esse Adão. Não sei como a namorada dele consegue ficar com a cabeça
em pé.
__Ela
dá seus pulos também. –completou- Ninguém é santo. Estou mais interessado em
saber o porquê disso tudo.
__Como
assim? Provavelmente beberam e Adão se aproveitou.
__Adão?
–disse rindo, a fumaça saia do canto da boca como uma bafora se preparando para
se cuspida- Adão se aproveitou? Você não é burra, mas também não precisa ser
ingênua.
...
__Ele
disse uma coisa, Lunin Solza. –Eva estava com as chaves de casa na mão,
encostada na porta de ferro ainda fechada- Me lembra lua...
Adão
estava encostado no capô, os braços cruzados, a testa ainda franzida. Agora que
teve tempo para absorver as visões e o que estava acontecendo, sentia-se
agoniado e impotente em não poder fazer nada.
__Ele
estava delirando, conheço Olavo a muito tempo. Nunca tive nenhuma visão ou
coisa do tipo com ele. –passou a mão nos cabelos e foi até Eva- Olha, vamos
dormir, amanhã podemos nos encontrar na faculdade, se tiver alguma novidade,
alguma ideia, podemos compartilhar.
__Sei.
–disse desanimada- Vai voltar para sua casa agora, sua fornalha e essas coisas.
Vai fingir que nada aconteceu?
Adão
odiava essa pergunta.
__Não
posso fingir que nada aconteceu, mas eu tenho minha vida, tenho Fernanda e...
Eva
sorriu, como se ele tivesse caído em sua pegadinha.
__Não
falo de nós, falo do que compartilhamos, nossas visões, aquela... Espada.
–suspirou e olhou a lua com seu brilho complacente- Lunin Solza, eu tenho
certeza Adão que isso tem algo a ver conosco. Eu vou pesquisar...
__Faça
isso. –disse aliviado e voltou para o carro- Amanhã então?
__Até
amanhã.
Eva
se virou e mexeu um pouco nas chaves, esperou que Adão a chamasse, a convidasse
para mais uma noite de conversa e aventuras, mas isso não aconteceu. Ele fechou
a porta do carro, disse um rápido adeus e uma pequena buzinada. Ela olhou o
carro partir e suspirou, sentia-se estranha ainda entre as pernas, sentia o
corpo relaxado e cansado, tinha certeza que dormiria com a lembrança do corpo
de Adão por cima do seu.
Se
odiou por isso.

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