Com
traços rápidos e grosseiros, Adão tentava desenhar a armadura de sua visão, não
lembrava bem da forma e muito menos dos detalhes, ainda assim tentava recriá-la
da melhor forma possível. Sentado no pátio da faculdade, debruçado sobre uma
mesa redonda de concreto frio, via a armadura tomar forma como uma pedra
preciosa a ser lapidada. Da forma grosseira, conseguia tirar, aqui e ali,
traços mais finos, redondos e que formavam lentamente a imagem real da sua
visão.
Fernanda
sentou na mesa, cruzando as pernas na frente do namorado. Adão não viu, mas
poderia, a calcinha da namorada, já que a saia era curta e a mulher fez de
propósito para tirar a atenção do namorado, mas não teve sucesso. Estava tão
concentrado no desenho que se quer notou que Fernanda sentou ali, a menos de um
metro dele.
__Ei!
–disse cutucando-o com o pé- Pare um pouco com esse desenho, que tal?
Adão
ainda deixou os olhos pousados sobre o desenho por um momento, via os traços
querendo tomar forma sobre o esboço grosseiro, poderia trabalhar naquela arte
horas e horas que não veria o tempo passar. Será que seria possível forjá-la?
Pensava enquanto balançava a folha a sua frente, tirando pequenos fiapos de
borracha.
__Mais
uma armadura... –disse Fernanda, abaixando a cabeça e segurando os longos e
loiros cabelos lisos- Vai desenhar uma espada para combinar também? Ou um
escudo?
__Escudo.
–respondeu assoprando a folha- Um escudo grande, talvez... Um escudo torre, que
possa cobrir quase todo o corpo.
__Scutum? –disse, desenhando com o dedo um
escudo na gravura- Não ficaria bom com um Pavis,
não é?
__Certamente
que não. –sorriu e se levantou, dando um rápido beijo nos lábios da mulher- Um pavis seria como carregar uma porta para
a batalha... Imagina a dificuldade em brandir uma espada com a outra mão, o
equilíbrio, o manejo...
__Adão!
–uma voz familiar o chamou, uma voz feminina, uma voz que não sabia se gostava
ou odiava- Olá!
Era
Eva, vestida com o uniforme da faculdade, uma jaqueta preta e uma saia preta
até um pouco antes dos joelhos. Seus cabelos negros e ondulados estavam soltos
e caídos sobre os ombros. Fernanda olhou-a de cima a baixo e depois escorregou
os olhos para o namorado que, com um sorriso meio nervoso, acenou sem vontade.
__Olá,
sou Eva! –disse estendendo a mão para Fernanda-
__Fernanda.
–cumprimentou Eva e olhou novamente para Adão- Que nome curioso, não é Adão?
__Pois
é. –sorriu- Pois é... Ela é amiga do Olavo, foi jogar poker ontem conosco e...
__Então
Eva –disse Fernanda saltando da mesa- Qual seu curso?
__Artes!
–disse empolgada- Sou caloura do Olavo, falando nisso, ele me disse que vamos
ter uma disciplina juntos semestre que vem Adão! Qual era mesmo... –abaixou a
cabeça e fechou os olhos, tentando se lembrar- Ah! Metodologia.
__Metodo...
Adão! –Fernanda deu um tapa no seu braço- Como assim? Você reprovou justamente
em metodologia?
__Sim,
por quê a surpresa? É uma bosta aquilo, eu sou um bom artista, não um bom
metodólogo se é que isso existe.
__Claro
que existe! –respirou fundo e voltou a atenção para Eva, que encarava-a com
cara de paisagem- Enfim... Bem vinda a nossa faculdade Eva.
__Obrigada.
Então, já vou indo, depois a... –Eva desceu os olhos na armadura de Adão e não
pode conter a surpresa- Essa é a... –levantou os olhos para ele, que
rapidamente pegou a folha e a amassou, jogando dentro da mochila-
__Essa
não é nada, só um desenho tosco.
Sem
dizer mais nada, Eva apenas acenou e se afastou em passos rápidos, sem olhar
para trás. Fernanda sentou novamente na mesa e se espreguiçou, olhando aquela
garota quase tropeçar ao passar por um grupo de pessoa. Adão pegou a mochila e
a fechou, jogando no ombro. Deu um beijo rápido em Fernanda e se despediu, indo
para sua aula pela manhã.
Já
na aula de Museologia, Adão mal ouvia o que a professora dizia e rabiscava no
quadro, sua atenção estava focada no novo desenho, a armadura novamente voltava
a tomar forma entre rabiscos grosseiros e rápidos, o peitoral já começava a
aparecer mais conciso, as formas das grandes ombreiras também. Parecia que já
estava ali, todo o desenho, mas ainda assim, não conseguia imprimi-lo da forma correta,
de como deveria ser, de como deveria ficar. Os rabiscos iam e vinham, a mão mal
parava de correr de lá para cá na folha, seus olhos não piscavam, sua
respiração era rápida e curta. Por um momento mal via a folha ou o lápis e sim
a armadura, o metal frio em suas mãos e o peso.
O
peso.
__Eu
nunca vou conseguir desenhar isso! –disse de uma vez, em alto e bom som, com um
sorriso vitorioso- Eu preciso criar isso! Esculpi-la! Forjá-la!
__Todos
nós ficamos felizes com sua epifania Adão... –disse a professora, seu rosto
enrugado tentava sorrir mas continha em uma expressão tranquila- Mas acredito
que deva guardá-la apenas para você, afinal, quem sabe alguém não gostaria de
tomar a sua criação para si mesma?
Rodrigo
ajeitou o corpo grande na cadeira e cutucou o ombro do amigo, o chamando mais
perto. Adão se debruçou sobre a mesa de desenho para ouvi-lo.
__Você
não tá bem não né cara? –disse e olhou para o desenho- Faz o seguinte, vamos
beber uma cerveja hoje lá em casa, só eu e você, aí você me conta o que que tá
pegando.
__Cara...
–Adão olhou para o desenho e suspirou- Deixa pra lá. Hoje à noite vou sair com
a Fernanda. Fica para a próxima.
__Você
que sabe. –coçou a careca e sorriu- Eva tá mexendo com a sua cabeça é?
__Não!
Não tem nada a ver com ela. Porra.
__Não
sei... Você ficou estranho ontem, quase chorou vendo ela. –riu e olhou a
professora que ainda discursava sobre arquivamento de obras- Aí eu vi hoje você
e ela lá com a Fernanda e de repente a garotinha saí quase correndo. A Fernanda
falou alguma coisa para ela?
__Nada.
–se recostou na cadeira, fechando os olhos e passando a mão nos cabelos
oleosos- Nada nada... Eva que deve ser esquisita, vai ver usa drogas.
Rodrigo
sorriu e voltou a prestar atenção na aula, mas logo puxou assunto com uma
garota quase dez anos mais nova que ele ao seu lado. Adão suspirou e jogou a
cabeça para trás, olhando o teto como se fosse a coisa mais interessante do
mundo naquele momento.
A
noite, Eva estava na casa de Rodrigo, junto com Olavo e Selene. Selene era a
irmã mais nova de Olavo, com dezesseis anos. Diferente do irmão, tinha uma
aparência saudável, seus cabelos loiros eram constantemente pintados de preto,
tinha olhos verdes quase azuis como os do irmão e costumava se vestir de
maneira conservada, com blusas de manga comprida cujas golas cobriam até o
pescoço. Nunca se interessou por nenhum dos amigos de Olavo e sempre os
considerou um tanto nojentos, com o tempo, acabou ignorando-os e os tratando
como se fossem outras mulheres, sem nenhuma chance de contato físico. Adão e
Rodrigo sempre a chamavam de lésbica dada a oportunidade.
Jogavam
poker com apostas baixas, tomando cerveja e vinho, sem pressa e uma conversa
fiada sem muita pretensão. Selene estava interessada em Eva e o que ela poderia
oferecer como uma amiga, afinal, sempre que saia com Olavo e seus amigos tudo
que aproveitava era o vinho de graça e algumas vezes, entrada para shows e
eventos. Agora poderia ter com quem conversar, partilhar assuntos femininos
enquanto os garotos faziam o que garotos fazem. Mas no fundo Selene sabia que
havia algo diferente naquela garota e talvez por isso a facilidade da amizade
que se formou entre ela e Olavo, talvez tivessem mais em comum do que
imaginava.
Selene
não era de muitas palavras, não tagarelava como Rodrigo e Olavo, costumava
dizer poucas se não nenhuma palavra durante uma noite inteira, mas já ao lado
de Eva, queria falar, comentar, sorrir e discutir os mais variados assuntos.
Eva não desdenhou ou diminuiu Selene, pelo contrário, passaram aquela noite
conversando tanto que as vezes Rodrigo e Olavo paravam para ficar olhando
Selene que ria, dava tapinhas no ombro de Eva e ficava vermelha e sem ar de
tanto rir. Quando percebia aquilo, tentava se recompor, olhava suas cartas ou
tomava um belo gole de vinho para manter a boca fechada, mas não durava muito e
lá estavam novamente, as línguas simplesmente não se contentando em ficarem
paradas.
Já
no final da noite, Selene e Eva sentaram na varanda da casa, os pés apoiados na
mureta, olhando os outros dois no quintal abaixo delas, sentados ao redor de
uma pequena churrasqueira elétrica, assando algumas linguiças para fazer um
lanche às quase duas da manhã.
__Então
Selene... –Eva terminou de encher sua taça de vinho, já se sentia um tanto
tonta, mas estava acostumada aquela sensação- E Adão?
__Tem
uma namorada chifruda... –disse sem sorrir- Muito babaca aquele cara. Rodrigo
ao menos não engana ninguém, todo mundo sabe que ele...
__Sim,
mas o que você acha dele? Qual a história dele? –olhou para os dois homens,
Olavo tentando evitar que Rodrigo encostasse uma linguiça quente nele- Eles não
vão me dizer nada demais, tenho certeza.
__Não
sei muito sobre ele na realidade. –tomou um grande gole e fechou os olhos- Ele
é um homem bacana, bonito, tem dinheiro... Mas não passa disso. Ele tem um
hábito estranho de sempre ficar desenhando armas e armaduras como uma criança
que gosta de super-heróis. É um excelente escultor, fez uma mesa de madeira
para Olavo que ficou muito bonita, com vários detalhes e bem equilibrada. Muito
bem feita mesmo, se um dia você for lá em casa, eu te mostro.
__E
esses desenhos? Tem algum significado para ele?
__O
quê? As armaduras e armas? Não que eu saiba, acredito que não, porquê?
__Nada
demais. –ouviu-se um grito no quintal, Eva olhou sorrindo quando Olavo limpava
o braço por causa do óleo da linguiça- São muito próximo vocês?
__Uns
quatro anos de convivência acho... Eles são legais sabe? Quando desistem de
comer você, acabam virando seus amigos.
__Comer?
–Eva riu- Eles são assim?
__Homens...
–disse com desdém- Pifff... Todos são.
Eva
sorriu e se encostou na cadeira, mudando o assunto com sua nova amiga. Enquanto
Selene falava sobre sua vida e seus desamores, Eva lembrava do desenho no papel
que Adão havia feito, na armadura que havia visto em sua visão. Era a mesma,
ela tinha certeza. Podia jurar por tudo que fosse mais sagrado, era aquela
armadura, sendo tirada de um esboço grosseiro.
Ela
estava certa afinal, havia visto Adão em uma armadura reluzente, prateada e
havia sim disparado uma arma contra ele, mas por quê? E porque ele também tinha
visto aquela cena? O que ela representava? E ainda o que mais a incomodava,
qual era o motivo de se sentir tão irritada na presença daquele símbolo, aquele
sol caricaturado, dourado, com olhos e uma boca que só a fazia lembrar de
revistas de fofoca com seus horóscopos fajutos. Eva tentou tirar esses
pensamentos da cabeça, se concentrar no ali e no agora, em Selene e seus
desamores.
Mas
sabia que havia algo de diferente em Adão e já suspeitava que seus nomes não
eram apenas mera coincidência.

Nenhum comentário:
Postar um comentário