Uma
pick-up preta estava estacionada no pátio da faculdade, um homem de quase
quarenta anos, cabelos curtos e ruivos, olhos pequenos e azuis, rosto um tanto
cansado pela idade e pintado com algumas sardas estava sentado sobre o capô do
veículo. O blazer branco ficava justo no corpo forte e bem cuidado daquele
homem, que atraia atenção não só das mulheres, mas alguns homens ainda se
interessavam por aquela figura, que parecia mais carismática do que o normal,
ou talvez, mais misteriosa.
Seu
olhos perseguiam a todos, sem exceção, como se analisasse cada um ali, cada
estudante e professor. Algumas pessoas o abordavam, perguntavam quem ele era, o
que fazia ali, mas apenas disse que esperava sua irmã, que era aluna naquela
faculdade. Uma ou outra mulher ainda ficava por lá, ele as tratava bem mas logo
desconversava e disse que estava muito cansado, preferindo ficar sozinho.
Alguns telefones anotados na agenda do celular e alguns bilhetinhos foram
recebidos por ele, mas não passou disso, enquanto por quase toda a manhã ficou
ali, observando.
__Nada.
–disse a mulher que se aproximava, tão ruiva quanto o homem- Não consegui
encontrar ninguém, tem certeza que é aqui?
__Sim.
–respondeu o homem da pick-up, os braços sobre o joelho, as mão juntas apoiando
o queixo- Aqui é onde... Espere. –levantou a cabeça e olhou ao redor, depois
olhou para fora da faculdade- Há outro lugar, pensei que eles fossem alunos
dessa faculdade, mas há outro lugar onde há mais concentração.
__Rubi,
você está certo, também sinto. Talvez... –disse batendo o dedo no queixo,
voltando a atenção para a faculdade- Talvez eles não tenham passado pelo
primeiro despertar.
__É
verdade, talvez não.
Rubi
finalmente desceu do capô da pick-up e se alongou, as mãos apoiadas na cintura.
Agora pode reparar melhor na mulher e seu óculos escuros que cobriam os olhos e
sobrancelha. Os cabelos encaracolados, longos e brilhantes, quase tão laranja
quanto uma cenoura, a pele mais marcada pelas sardas, mas tão branca como a do homem
a sua frente. Usava um blazer aberto, preto, a camisa social verde de seda por
baixo estava impecavelmente lisa e lustrosa. Era dez anos mais jovem, mas sua
elegância e seu carisma rivalizavam os do homem.
__Vamos
irmã. –disse abrindo a porta para a mulher entrar- Vou procurar esse lugar,
descobrir onde é.
__Rubi,
isso é muito estranho. O vórtice culmina aqui, acha que algo pode estar errado?
__Não,
nada há de errado no caminho do destino. –ligou a pick-up- Apenas ainda não
compreendemos o significado do caminho.
Naquele
dia em especial, Adão, Rodrigo e Olavo haviam decidido faltar a faculdade e
passaram a manhã em um bar não muito longe dali. Eva acompanhou Olavo quando
descobriu sobre a pequena aventura dos três e logo Selene também foi ao
encontro do irmão. A pick-up passou em frente ao bar, janelas fechadas e vidros
escuros. Os olhos de Adão acompanharam aquele veículo sem muito interesse, mas
ainda assim, o observou até virar a esquina. Olavo virou a cabeça para
descobrir o que ele olhava e brincou, dizendo que pensava que Adão tinha visto
a bunda mais bonita da vida dele.
Quando
Rodrigo chegou em casa próximo a hora do almoço, notou a pick-up estacionada do
outro lado da rua, Rubi sentado no capô e sua irmã encostada ao seu lado.
Acompanharam o carro de luxo do homem entrar na garagem, com o vidro aberto
Rodrigo olhou bem para os dois, acreditando ser novos vizinhos ou coisa assim.
Naquela região, ruivos só poderiam ser estrangeiros.
__É
ele? –perguntou a mulher-
__Não.
–desceu do capô e suspirou- Mas o primeiro encontro foi aqui, tenho certeza. Há
algo naquele homem, contudo.
__Não
vamos falar com ele? –disse a mulher enquanto Rubi abria a porta da pick-up-
__Ainda
não, ainda é cedo. Talvez até cedo demais.
...
Uma
semana depois, em um ensolarado domingo, Rodrigo convidou seus amigos de sempre
para um pequeno encontro em sua casa, cerveja, música e churrasco. Adão aceitou
sem pestanejar, Fernanda ainda fez corpo mole, mas logo se entregou a ideia,
era sábado afinal, nada para fazer. Arqueou uma sobrancelha ao ver Eva, com
suas roupas pretas e justas, um pequeno chapéu preto e óculos escuros redondos,
tinha cara de artista, pensava, já sentindo ciúmes daquela mulher. Nunca sentiu
ciúmes de Selene, irmã de Olavo, mas com Eva era diferente, era muita
coincidência seu nome, era muito atrevida aquela mulher. Já Adão estava
deslumbrante, sentado ao lado de Rodrigo à churrasqueira, a camisa branca,
justa, o corpo forte ressaltado pela luz que o banhava, a barba a fazer
fortalecendo ainda mais sua masculinidade. Fernanda se deliciou por alguns
momentos com a visão daquele homem, as lembranças de seu sexo vindo à tona, o
sorriso bobo se instalando em seu rosto vagarosamente, mas surgindo ainda
assim. Olavo estava ao lado de Eva, na beira da piscina, os pés brancos como
uma folha de papel dentro da água, a artista agachada ao seu lado, sorrindo e
jogando conversa fora. Selene trouxe uma lata de cerveja para Fernanda e
encostou no pequeno muro que circulava metade da piscina.
__Ele
até parece que brilha, não é?
__Quem?
–Selene bebeu o vinho gelado, olhando para a taça-
__Adão.
–disse boba, olhando para Selene e seu rosto sem maquiagem- Adão... –suspirou e
voltou o olhar ao homem- Essa vida deles, é engraçada não é? Todo esse luxo,
toda essa facilidade...
__Olha
quem fala. –disse secamente para Fernanda-
__O
que foi? –Fernanda desencostou da mureta- Nossa, tudo bem, vou pra lá tá?
Obrigado pela cerveja.
__De
nada... –respirou fundo e segurou o braço da mulher- Escuta... Desculpa. É que
você é tão imponente, tão forte. Eu sou cercada por gente...
__Fraca?
–olhou para Olavo que saltou para dentro da pequena piscina, chamando Eva- Por
causa do seu irmão?
__Toda
minha família é assim, menos eu, parece que até meus amigos são. Eu não herdei,
mas minha mãe faleceu no parto, você já deve saber disso, meu pai o irmão dele,
o meu tio, os dois tem a mesma doença, Olavo herdou, eu não, mas... –tomou o
resto da taça em goladas grandes- Mas para variar, fiquei sem mãe. –suspirou e
se levantou, a chamando- Vem, vou pegar mais vinho. É bom ter alguém para
conversar, você não costuma a andar muito com Adão.
__Meu
trabalho. –sorriu acompanhando a garota- Às vezes ele acaba me tirando da minha
vida pessoal, sou agente de artistas, tenho que viajar e sair e essas coisas.
__Fernanda,
você tem o que? Trinta?
__Trinta?
–riu- Sim, na realidade tenho vinte e nove, mas farei trinta no meio do ano,
por quê?
__Por
nada. –pegou a garrafa de vinho e se serviu, de lá pode olhar pela janela,
vendo Eva agachada perto de Rodrigo e Adão- Por nada...
Fernanda
percebeu no semblante de Selene que não era por nada, alguma coisa a
incomodava, a chateava, a deprimia talvez. Olhou também pela janela, Adão
estava de cara fechada enquanto Eva conversava alguma coisa com ele, cruzou os
braços sobre a camisa branca e desconversou, Eva saiu de lá e voltou a dar
risada com Olavo. Selene bebia seu vinho também os olhando pela janela, olhava
para Adão e seu estranho charme naquele momento, olhava para Rodrigo e suas
risadas altas e sinceras, parecia para Fernanda que Selene sentia falta daquela
energia, que lhe faltava algo e ainda não havia encontrado.
Depois
de um grande gole na latinha de cerveja, Fernanda a chamou para voltarem até
lá, Selene deu de ombros e a seguiu. Quase na hora do almoço, alguns outros
convidados chegaram para a confraternização, homens e mulheres, amigos,
parentes e até algumas pessoas que Rodrigo nunca havia visto na vida, mas os
aceitou de braços abertos, amigos de amigos, parentes de amigos, amigos de
parentes e por aí vai, um grande encontro que se não fosse pelo espirito
amigável e hospitalidade de Rodrigo, poderia ter desandado e virado bagunça.
Fernanda
não saia mais do lado de Adão, que parecia excepcionalmente radiante aquele
dia, atraindo olhares e algumas mulheres corajosas que ainda se aventuravam em
conversar com o homem ao lado da namorada, mas Fernanda era hábil com as
palavras e conseguia ser cordial e diplomática até mesmo dando uma ordem de
execução.
Mas
a noite, os papéis se inverteram, Adão pareceu perder o seu brilho já que Eva
parecia ainda mais bonita do que antes. Tirou os óculos e o chapéu, prendeu o
cabelo em um rabo de cavalo alto e agora parecia ser o centro das atenções,
falando sobre suas aventuras e experiências com arte e artistas, pintores em
sua maioria. Fernanda se pegou admirando aquela mulher, sorrindo de suas
brincadeiras e rindo junto com ela, não sabia se era a cerveja que já havia
tomado demais ou se simplesmente Eva se tornou mais carismática. Houve até um
momento em que Fernanda se esqueceu de Adão e sua atenção ficou totalmente
voltada àquela mulher que falava e falava e todos a ouviam como se fosse a
anfitriã da festa.
Quase
uma da manhã se despediram e muito educadamente, Rodrigo mostrou o corpo
cansado e a necessidade de irem dormir, além da promessa de repetiram em breve
outro sábado tão divertido desses. Naquela noite Fernanda quis dormir na casa
de Adão, o puxou com presa do carro e o levou para o quarto, o amando como a já
há algum tempo não amava, com ternura e com vontade, com muita vontade. Adão
sorriu e retribui o gesto, ainda que estivesse cansado e tonto por causa da
cerveja, pode saciar o tesão da namorada. Tomaram um banho depois do ato e ela
pode confessar que passou a tarde inteira o desejando, desde que o viu sentado
ao sol. Adão apenas sorriu e a puxou para si, lhe beijando e surrando em seu
ouvido que a amava.
Adão
se lembrou naquele momento das outras mulheres com quem ele se deitou enquanto
perdurava seu namoro com Fernanda e ponderou se, realmente, a amava como as
palavras da sua boca afirmavam. A face de Eva estava em sua mente, seu sorriso
e seus cabelos ondulados como o reflexo do céu noturno em um rio de aguas
calmas, como uma música ruim que insiste em se repetir em sua mente, sem parar.
Tocou os cabelos da mulher a sua frente, gostava muito mais do loiro, do
dourado, da cor e não do contrário, do preto e da sua ausência de tons.
Fernanda,
cansada, abraçou o corpo molhado do homem e sorriu, descansando em seu peito.
Adão a abraçou e afagou seus cabelos molhados, por um momento imaginou-se
acariciando os cabelos de Eva em uma noite de luar, fechou os olhos com força e
negou o pensamento, mantendo as memórias frescas de sua noite de amor com
Fernanda.

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