Os
dedos finos deixaram o espelho de lado após alguns toques no cabelo e apanharam
um lápis amarelo, a borracha vermelha do topo gasta e redonda. Estava em uma
sala de aula, bateu tediosamente o lápis contra um caderno rabiscado, cheios de
desenhos de roupas, vários mantos e capas, sobretudos e capuzes. Olhou pela
janela, nevava, os rostos dos alunos se confundiam, não havia foco, como
bonecos, manequins em uma loja de roupa. Ele ainda olhava, ou ela, a neve cair
sem vontade, plainando no ar até finalmente cair.
Apoiou,
entediado(a), o queixo sobre a mão e continuou encarando a janela, prestando
atenção a uma árvore sem folhas, cinza, que era parasitada por um grande tufo
de visco. Sorriu, mordeu a ponta do lápis e o manteve na boca, balançando-o com
a ponta da língua. Ouvia-se um professor dizendo algo, incompreensível, parecia
nada, coisa alguma, um som distante de uma conversa fiada. O tufo era de um
verde exuberante, vivo e saudável, entrava em contraste com um céu azul que de
tão puro parecia o céu das histórias sobre o paraíso.
Mas
para quem via com tamanha atenção aquele visco, para ela, ou ele, aquele tufo
era uma coisa tão triste, uma planta que precisa de outra para sobreviver,
grudada, presa, se alimentando e crescendo, quase como um câncer. Um câncer
vegetal, poderia ser.
__Locke!
–disse em voz alta aquela vozinha tão monótona-
Os
olhos da cor das aguas caribenhas encarou uma forma embaçada, que se focava
lentamente em um rosto velho, marcado pelo tempo, de cabelos e barbas pretas. O
homem voltou a falar sobre alguma coisa no quadro, algo sem importância e logos
os olhos oxalés* se voltaram para o visco e seu brilho verde daquela manha
fria.
Locke
tirou o lápis da boca e escreveu seu nome, diversas vezes, naquela folha em que
desenhava. Escrevia por cima das roupas, das capas, dos mantos... Locke, Locke,
Locke, tantas vezes que cobriu toda a página. Um garoto ao seu lado via tudo
aquilo curioso, com um sorriso bobo mas simpático. Locke sorriu de volta e, de
todos os rostos sem detalhes, aquele era o que mais chamava a atenção. Era um
rapaz de rosto redondo, cabelo de um castanho tão claro que era confundido com
um ruivo. Seus olhos brilhavam, pareciam duas bolas de gude escuras. Uma barba
rala que mais parecia uma penugem lhe cobria os lábios e o queixo em um
cavanhaque descuidado. Não tinha mais que vinte anos.
__Ei
Locke... –o garoto disse e se apoiou sobre a cadeira, para ficar mais próximo-
Você está bem? Parece tão... Fora de orbita ultimamente.
__Não
ligue Baldur. –disse Locke com uma voz muito fina para ser masculina, muito
grossa para ser feminina- Essa aula parece não acabar nunca. –o lápis voltou
para a boca, os olhos para o professor- Com licença! Preciso ir ao toalete. –se
levantou e ajeitou o cachecol ao redor do pescoço-
O
professor fez um sinal para Locke, que aproveitou a deixa e saiu da sala, parou
do lado de fora, Baldur acompanhava seus passos com os olhos. Locke piscou para
ele e tirou um maço de cigarros do bolso, saindo dali e caminhando, lenta e
tediosamente, sobre a neve que lhe cobria até o tornozelo. Com passos
vagarosos, deu a volta em todo pavilhão de salas e foi até a árvore sem folhas,
onde o visco repousava em um dos seus galhos mais altos. Deu uma tragada longa,
os olhos grudados naquelas folhas exuberantes acima da sua cabeça.
__Um
dia... –olhou para a janela de sua sala e pode ver Baldur, com o mesmo sorriso,
assistindo a aula como se fosse uma das coisas mais interessantes do mundo- Um
dia... –tragou e cerrou os olhos- Um dia ainda mato aquele cara. –sorriu e jogou
a guimba na neve, acendendo outro em seguida- Filho da puta...
Baldur
levantou a mão, disse alguma coisa e foi seguido de aplausos da turma e do
professor, pode ouvi-los de longe, o garoto sorria acanhado, se levantou, fez
uma reverencia em agradecimento e voltou a sentar. Um sorriso cínico e sombrio
brotou dos lábios de Locke, olhando aquela cena.
__Um
dia eu ainda te mato. –apontou para Baldur, os dedos como um revolver- Imagino
se vai continuar sorrindo, depois de morto.
A
visão congelou como um filme pausado, escureceu e derreteu. No escuro ouviu-se
um barulho de isqueiro, tic-tic, e um lampião ascendeu, iluminou um corredor
empoeirado, de madeira, tão pequeno e cheio de objetos que transmitia uma
sensação claustrofóbica. Uma mão negra, enrugada e de unhas rosadas segurou o
lampião e levantou na altura de um rosto velho, negro, de olhos avermelhados e
um cabelo crespo, branco, em um corte arredondado como um pequeno “black
power”. O rosto sorriu quando a luz o tocou e olhou ao redor, procurando, os dedos
passando sobre empunhaduras empoeiradas e bainhas, até mesmo por uma katana em
um suporte de ébano. Uma mão forte lhe segurou o ombro, o homem deu dois
tapinhas naquela mão e disse em uma voz rouca, poderosa e de sotaque carregado.
__Pressa
aqui e você não irá encontrá-la. Há muitas como ela, mas como ela, não há
nenhuma. –sorriu e continuou- Essa espada que procura, por quê agora?
__Por
que? É a nossa vez. –disse uma voz masculina, grave, por trás do homem- Ela
está aqui, você tem certeza?
__Claro
que tenho, eu sou o armeiro a mais de cinquenta anos. Herdei do meu pai, meu
pai do meu avô... –tossiu, o lampião balançou e a luz projetou sombras que
pareciam pequenas pessoas dançando nas caixas e paredes- Você sabe de toda a
história, por que então está com tanta pressa? Unh... –coçou o rosto e levantou
o dedo para cima, sorridente- Ah já sei! Não gosta daqui não é? É... Meu pai,
que o Barão Samedi o guie, sempre me falava sobre vocês, o povo branco, as suas
culturas e seus deuses e toda sua importância. Sabe bom homem, ser o armeiro é
muito interessante.
O
homem pegou uma katana e a desembainhou, mostrando uma lamina suja e marcada de
um sangue seco, preto e grosso pela sujeira e pó acumulado. Pousou o lampião e
deixou a lamina próxima a claridade, o brilho passou da empunhadura a ponta.
__Não
podemos limpá-las, não senhor. –apontou o sangue e sorriu, os dentes
perfeitamente brancos- Olhe só aqui, de quem é? É de um japonês, pelo que eu
soube. Pelo que me contaram, sempre me contam, suas histórias e essas coisas...
Mas vai ficar aí, até o próximo vir usá-la. Você sabe, não sabe? Você não vai
poder pegá-la, só ele.
__Eu
sei disso armeiro. –uma mão surgiu na escuridão e gesticulou- Vamos continuar,
quero ter certeza de que está aqui. Eu o enviarei para buscá-la no tempo certo.
__E
ele virá? –riu de boca fechada, com uma tosse contida- Não tenha tanta certeza
meu jovem guia. O crepúsculo de todos nós pode estar aí, acontecendo, e nem
mesmo sabemos.
A
mão tocou seu ombro novamente, o armeiro virou e encarou o rosto do homem. Um
rosto branco, ruivo, barba a fazer. Seus olhos azuis safira brilharam na
escuridão e ele disse, sério, a voz soava firme e decidida.
__Eu
sou o crepúsculo.
O
armeiro arregalou os olhos em espantou, sentiu o queixo cair mais logo fechou a
boca e sorriu, voltando a procurar a espada. Parecia que sabia exatamente onde
ela estava por quê, depois desse momento, levantou a mão sobre uma estante e
pegou uma espada longa, embainhada. A empunhadura era toda feita em ouro,
grossa em forma de T, enrolada por um couro negro e seco. Sua ponta era
adornada pelo símbolo do sol, grande e brilhoso, com quase dez centímetros. A
poeira parecia desviar do símbolo, estava impecavelmente dourado.
__Eu
tenho um filho, rezo para que os Loa sejam bons com ele. –disse o negro,
pousando a espada de volta sobre a prateleira- Eu não sei, e não é para eu
saber, quais são seus planos ou o que vai acontecer, não senhor. Meu filho já
sabe do arsenal, sim, já tem dezoito, vai herdar. Homem forte, pau grande como
o do pai. –riu, a tosse contida- Grande, parece um cavalo, que varão ele é!
__Estou
orgulhoso de você armeiro. Nunca imaginei que vocês realmente tê-las-iam.
__Tudo
bem homem. –a risada continuou, a tosse venceu- Tudo bem... Esse é o nosso
trabalho. Mas, se me permite, vou lhe confessar uma coisa. –girou o corpo e
gesticulou para que seguisse na frente- Vamos sair daqui primeiro, sei que não
gosta. Já sei qual deles você é. Claro que sei.
Com
passos trôpegos, o homem alto foi na frente, o armeiro iluminava o caminho, o
seguindo e o empurrando as vezes. Quando abriu a porta, o homem apagou o
lampião e o prendeu em um gancho atrás da porta, a luz do dia entrava no
aposento, a poeira dançava como as sombras. O homem não percebeu, mas o armeiro
passou os dedos pelas figuras, sorrindo.
__Vou
lhe confessar e depois você vai embora. Tenho medo que o filho do filho do meu filho
não se importe mais com o arsenal. Sei que o varão vai herdar, sim, e seu filho
também... Mas a terceira geração depois de mim...
O
homem se virou, o blazer esportivo branco e justo tinha pequenos pontos de
poeira pousada. Segurou os dois ombros do armeiro e sorriu, acolhedor. Deu-lhe
dois tapinhas no rosto e respirou fundo, olhando a loja de pesca, a fachada
para o arsenal.
__Como
você mesmo disse, não é para você saber. –concluiu- Só posso lhe dizer que o
seu trabalho está completo.
__Não
está. –a risada, a tosse- Todos dizem isso, mas sei que só vai acabar quando eu
morrer e o varão do meu filho me sepultar para o Barão da Cruz.
__É
verdade armeiro... Ele virá buscar a espada. Estou certo disso.
__Você
sabe? –disse o acompanhando até a porta- Essa daí, quantos anos tem?
__Há
alguma coisas que não é para eu saber, também. –sorriu complacente- Sei que ele
irá perguntar, responda para ele, ele vai saber.
__Ah
se vai. –tossiu e riu, riu e tossiu- Maldita poeira...
Novamente,
o filme foi pausado, a imagem derreteu e deu lugar a um homem saindo da
juventude, vinte e um, seus cabelos castanhos escuros, longos, preso em um rabo
de cavalo, a barba perfeitamente raspada, sem um só pelo. Era um homem lindo,
rosto quadrado, sereno, olhos fechados. Estava em pé, uma roupa pesada e branca
lhe protegia do frio. Tinha um arco de caça preto nas mãos, pequeno, de tão
moderno parecia ter saído de um filme de ficção cientifica. Puxou a corda, as
rodas giraram, a flecha foi armada.
Quem
assistia se encostou na mureta de madeira que dividia os arqueiros do campo de
disparo. O alvo estava a mais de cem metros, os braços rechonchudos se apoiaram
na madeira fria, a jaqueta marrom pesada fez um ruído agudo ao roçar dos
braços.
__Baldur.
Sem, barulho. O que eu lhe disse? –aliviou a tensão da corda e abaixou o arco-
__Desculpe,
desculpe... Pode continuar.
Via
o homem pelos olhos de Baldur, que ficou imóvel depois da bronca. Novamente puxou
a flecha e atirou. Ela voou veloz, firme, em um arco. Subiu, desceu e acertou o
alvo. Baldur pegou o binóculos que estava pendurado ao pescoço e olhou onde a
flecha havia acertado.
__Errei.
–disse o homem- Acertei na faixa azul.
__Sim.
–disse Baldur com um sorriso- Errou o centro, mas acertou na segunda faixa
azul. Ainda não sei como consegue fazer isso sem enxergar Hodur. É incrível!
__Obrigado.
Hodur
pegou outra flecha e atirou novamente, sem parecer mirar, os olhos fechados. A
flecha voou e acertou no centro, fincando com firmeza. Baldur largou os
binóculos pendurados e aplaudiu vigorosamente.
__Hodur!
–e os aplausos não cessavam- Hodur! –e o homem de olhos fechados sorria,
contente- Hodur!
...
Eva
estava por cima de Adão, ainda sentada em seu membro. Se olhavam nos olhos,
atônitos. Toda a visão que tiveram não durou mais do que alguns segundos. Ele
despertou após sentir o liquido quente escorrer pelo seu membro, chamou Eva
pelo nome, que piscou algumas vezes e desviou o olhar, até um tanto envergonhada
depois do gozo e se levantou, indo ao banheiro.
O
homem sentou na cama por um momento e passou as duas mãos no rosto, respirando
fundo, ainda ofegante, as imagens que viu estavam frescas na memória como um
filme. Eva tomava banho com a porta aberta, ele a olhou, sua linda silhueta
pelo box de vidro acidado.
__Adão!
Venha tomar um banho comigo. –disse uma Eva que parecia perfeitamente normal,
sua voz nem ao menos parecia bêbada- Venha...
Ele
abriu a porta do box e Eva sorria embaixo do chuveiro, os cabelos presos sobre
a cabeça para evitar de serem molhados.
__Não
se preocupe. –disse Eva quando ele entrou e o puxou para baixo do chuveiro- Eu
tomo anticoncepcionais. –olhou por um momento o homem e lhe deu um abraço
rápido, voltando a se lavar depois- Você viu?
__Sim.
–disse exalando todo o ar dos pulmões- Locke, o garoto Baldur, o armeiro,
Hodur...
__Eu
vi a mesma coisa. Locke é um homem ou uma mulher?
__Bem...
–Adão sorriu- Se for homem, é bem afeminado com aquele óculos e aquela voz.
__Verdade.
Eu não gostei do que vi no armeiro. Sua espada.
__Minha
espada? –apanhou uma toalha e entregou outra para Eva- Como sabe que é minha?
__Eu
sei que é! –Eva se enrolou na toalha e saiu do banheiro, acompanhada de Adão-
Eu sei que é, aquele símbolo... Aquele maldito símbolo!
__Ei,
calma. –Adão a abraçou, ela relutou um momento e depois retribuiu- Eu não sei o
que essas visões significam, mas não precisa se preocupar.
__Você
vai perfurar meu coração com ela, e depois?
__Ei!
Eu não vou perfurar seu coração! –Adão ia leva-la para a cama, mas estava suja
de suor e sêmen- Eu não sei nada disso e mesmo que, por alguma razão, eu tenha
alguma visão, eu não te machucaria, ainda mais matar você... Na primeira visão,
eu não tinha espada alguma. –sorriu, tocando o rosto da mulher, que sorriu de
volta- E você, vai atirar em mim?
__Só
se for preciso.
__Venha,
depois troco esses lençóis, venha dormir na minha cama.
Adão
a levou para o quarto, sua cama de casal que tantas vezes se deitou com
Fernanda e a amou. Viu Eva se deitar, nua, e puxar o lençol para se cobrir.
Adão ligou o aparelho de som com uma música baixa e tranquila, ligou o ar
condicionado e diminuiu a luz, deixando uma fraca penumbra no ambiente.
Ela
o chamou com a mão e sorriu, como havia sorrido antes, de forma sacana. Adão
não a desobedeceu, se deitou com ela e a amou mais uma vez, mas dessa vez não
tiveram nenhuma visão. Dormiram em seguida, cansados, preferiram deixar a
conversa sobre o que viram para outro dia.

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